sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A revanche!

Acesso ao Cristo Redentor, fronteira Chile-Argentina a 4200m de altitude. 31/dez/2007
Na foto minha bicicleta nêga, roubada nos recantos mais obscuros do Brás ano retrasado.


Pois é...

Dois anos se passaram e eu estou aqui novamente, do outro lado do continente onde reside minha família, onde agora mora minha mae e onde por muitas vezes eu sonho em ficar.

A viagem que fiz no final de 2007/início de 2008 mudou completamente a minha vida e minha forma de pensar, e quando voltei a SP me vi deslocado de tudo aquilo que antes talvez fosse importante para mim e que perdeu seu valor.

Conheci muitas pessoas desde entao, consegui publicar fotos em alguma revista famosa de turismo por aí, e até cheguei a dar uma entrevista no canal Play TV contando um pouco da experiência que vivi.

Dois anos deslocado, perdido, sem saber se amo minha cidade ou se coloco fogo em tudo o que vejo; sem saber ao certo se continuo tentando algo que nao acredito mais, ou se fujo de vez para um sonho que ainda nao sei se quero de fato.

A viagem me inspirou e mesmo depois de dois anos ainda inspira algumas pessoas.

Sempre me perguntam o que faço da vida, e o único que me dá prazer é falar sobre a minha aventura porém até que ponto isso é tao admirável?
Me explico.

Isso talvez exponha minha fraqueza, já que talvez eu tenha me tornado tudo e somente isso; um Dom Quixote que vive de fantasias e sonhos, que enfrenta monstros gigantes que nao passam de moinhos de vento. Minhas façanhas que agora fazem parte de um passado nao muito distante serviram para me manter forte e integro aos meus ideais e causa admiraçao e espanto em algumas pessoas, mas ao mesmo tempo protegem e legitimam uma vida frágil seguida por ideais perdidos e que talvez nao tenham o mínimo valor já que sao pessoais demais.

A grande façanha foi conseguir uma vida mais simples e desapegada a regras, costumes, bens materiais e comportamentos que só fazem sentido num circulo social restrito e limitado a uma cidade grande. Financeiramente foi um fracasso.

Andei muito perdido e sem forças para seguir os meus sonhos, a idade vem chegando e as escolhas que tive acabaram por me transformar num ser deslocado que vive de dúvidas e incertezas.

Eu me afastei de muita gente e preferi ficar só, guiado por um sentimento bem negativista achando que tudo está errado e que nao mudará jamais.

As vezes sinto até culpa em me isolar, me perguntando se é uma boa soluçao dar fluidez aos próprios pensamentos e tirar minhas próprias conclusoes acreditando que as pessoas nao me entenderiam.

De fato tudo ficou mais claro, mas talvez seja egoísta demais pensar assim e no fundo estava me tornando alguem tao detestável quanto aqueles que eu odiava.

Muita coisa aconteceu e está acontecendo.
Ando vivendo as coisas com muita intensidade e de forma extrema. Me ferrei por ter escolhido viver por conta própria fazendo freelance, com aluguel e contas de luz e água para pagar. Vivi com o mínimo suficiente para manter as contas em ordem, e quase nunca sobrava para comprar um pao.
Encontrei bicos que atrasavam o pagamento, até que obviamente nao resisti a pressao e tive que me desfazer de tudo o que tinha, inclusive da minha casa.
Me deprimi novamente e coloquei em cheque meu sistema precário de vida. Recebi a ajuda de grandes amigos (Macarrao, Rita, Maria, Tia Tania e Elis) e consegui me manter vivo nesses últimos meses.


Coloquei minha cabeça no lugar e decidi ordenar a minha vida depois de conhecer uma criaturinha japonesa, que resolveu me apoiar quando o furacao estava passando sobre minha cabeça, e em muitos outros momentos me dando forças para voltar a acreditar em mim e nos meus sonhos, e que agora inclusive faz parte de todos eles.
Estamos mais que unidos depois de muitas reviravoltas que a vida deu nesse final de ano e daremos a volta por cima juntos. (falei bonito bebê?)


As coisas devem se encaixar, e vao funcionar como diz a lenda.

Pois bem, acabei entao por seguir meu coraçao novamente...
Sou um daqueles idiotas que se guiam pela paixao e se aventuram por campos incertos mesmo sabendo que os prejuízos sao muito mais do que certos.
Nao me importo mais!

Juntei dinheiro trabalhando dobrado em alguns empregos temporários e aqui estou eu novamente.
Matar as saudades da véia, e terminar com essa vontade que me corrói desde que voltei daquela viagem. Quero fazer o mesmo caminho só que de volta.


Bom, pelo menos é isso que espero, e desta vez nao farei sozinho já que meu primo Cesar amante das bicicletas me acompanhará nesta que será sua primeira cicloviagem.

O objetivo agora é chegar a Mendoza na Argentina, mas respeitarei se meu primo nao aguentar (como se eu fosse um atleta, um homem de ferro que a tudo resiste, né?) ou que precise voltar já que seu tempo de férias anda meio curto... Talvez cheguemos até Las cuevas, depois da aduana. Nao importa, a viagem e o percurso é o que valem.

Bagagem no alforge e vamos embora.

Partiremos hoje a Los Andes e a previsao é de 36 graus no coco.

Já sei das coisas, conheço os perigos e pretendo nao cometer os mesmos erros da viagem passada. (o mesmo eu deveria fazer com a vida)

Espero que nao se cansem de ler, espero que nao me achem um lunatico, um imaturo, um irresponsavel... Pensando bem, quero que saibam que nao me importo se vossas opinioes sao desse teor destrutivo (criatura contraditória)
Voltarei sim com uma mao na frente e outra atrás e nao me importo, darei um jeito como sempre fiz.

Dessa vez colocarei tudo o que for pertinente aqui, e deixarei atualizado para dividir esta experiencia.

Desejem-me boa sorte.

Um abraço aos que lerem, e obrigado a todos os que me apoiaram!

Amo você, minha Japinha.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Primeiro dia - PARTE I


Início da Ruta 7 Internacional
Upload feito originalmente por terroristalatino
DIA 1 - 28/12/2007


A moça da recepção do albergue foi meu despertador.
6 da manhã me deu um tapa na orelha e me deixou de pé!!

Na noite anterior não consegui dormir cedo e muito menos acordar, já que conheci uns compadres brasileiros que chegaram no hostel e acabei por passar a noite com a rapaziada fazendo um tricot! Povo muito gente fina, sobretudo o casal Douglas e Marisa de São Paulo. Trocamos figurinhas, almoçamos num restaurante vegetariano no centro de Mendoza, e os acompanhei até a rodoviária para comprar suas passagens para Santiago de Chile. Compraram os primeiros assentos do ônibus panorâmico, e combinamos um tchauzão caso cruzasse com o ônibus deles pelo caminho!

É bom trocar uma idéia com os viajantes, e conhecer um pouco das suas trajetórias, os objetivos da viagem de cada um, se estão só passeando, se pensam em escalar o Aconcágua, conhecer as vinícolas da região ou se estão fugindo da realidade como eu...

Mas após adiar um dia, chegou a hora de encarar de frente o tal desafio.
O plano era levantar as 6, arrumar as coisas e picar a mula no máximo até as 6:30.
Tomei o café da manhã reforçado, ajeitei as coisas na bolsa de guidão improvisada, instalei os alforjes no bagageiro, coloquei aquela bermudinha ridícula de ciclista (por baixo do short, claro!) zerei o velocimetro da bike e parti, com muito atraso. (a bermudinha tem um belo acolchoado no cavalo; não evita aquela dorzinha desgraçada depois de um longo dia de pedalada, mas pelo menos alivia a dor no trololó!)

7:15 da manhã. O Sol, o grande vilão da história, já tinha surgido e prometia um daqueles dias maravilhosos! Nenhuma nuvem no céu, o dia seria caloroso.
Mendoza é quente e seca. É uma cidade com clima semi-desértico.
A hora de partida ideal deveria ser às 5 da manhã, para tentar chegar em Potrerillos, 75 km depois, lá pelas 11 da manhã, e descansar numa sombra quando o Sol estivesse lá em cima rachando o meu coco.

A falta de planejamento suficiente foi aparecendo logo no início do trajeto. Nunca havia pedalado com a bicicleta carregada daquele jeito. Minha bagagem pesava aproximadamente 9 Kg, o que é pouco. O que fez um pouco mais de peso foi a garrafa de 1,5 l que levei a tiracolo, congelada para derreter no caminho, a caramanhola da bike cheia de água também, e um Gatorade que fez o favor de abrir no meio do caminho melando toda a quantidade de barras de cereal que levei comigo no guidão.

Mas enfim, o medo inicial foi desaparecendo a medida em que fui me acostumando com o peso, e foi se transformando naquela felicidade e empolgação de alguém que está fazendo aquilo que sempre desejou.
Me senti vitorioso, sensação estranha, quase um rei soberano. Parei num posto na saída da cidade para calibrar os pneus, e os frentistas logo se deram conta de que o destino daquela bicicletinha não era a outra esquina. Foi o primeiro incentivo que recebi, e se despediram com um carinhoso "Que le vaya bien"!!
Início da estrada.

São 25 km de reta numa estrada movimentada com duas faixas. O trânsito é pesado, caminhões carregados de tudo quanto é tipo de produto, afinal de contas estou atravessando o principal acesso por terra entre estes dois países.
Vários carros com placa do Brasil, do Uruguay, do Chile, até uma van com a placa do México por estas bandas!!

No ínicio da pedalada, tranquila, 50 km de retas. Um casal brasileiro pára para tirar suas fotos com as montanhas ao fundo. São de Joinville e querem chegar até Puerto Montt. Boa viagem!
Um tiozinho numa caminhonete caindo aos pedaços me "saluda" e pergunta onde vou tão carregado?
Me ofereceu uma carona até Potrerillos, e me disse para conhecer Tupungato, pois é um vale muito bonito com um vulcão que leva o mesmo nome.

Agradeci a carona, seria uma mão na roda mas a graça toda está em conquistar tudo isso no pedal, né não?
25 Km depois chego a famosa Ruta 7, e minha direção muda de Sul para Oeste, ali, de frente para as cordilheiras, uma muralha de terra marrom e soberana... Lá no fundo, perdidas entre as nuvens algumas montanhas guardam no pico o que restou das nevascas. O inverno mais frio de 15 anos!!!

O que mais encontro pelo caminho são aqueles altares em homenagem a alguém que morreu atropelado pelo caminho, se acidentou, algumas homenagens a santa Terezita de los Andes e de dois nomes curiosos... El Gauchito, sempre homenageado com umas bandeiras vermelho e azul e La difunta Correa...

Me disseram que são padroeiros da estrada Argentina. O tal gauchito foi um cara assassinado pela polícia, ou algo do tipo. Alguém recebeu alguma prece do maluquinho e ele virou Santo... Coisas da fé. A difunta Correa continua anônima para mim.

O tempo passa, a bunda assa.
Já sinto um grande incômodo ao pedalar. Não aguento mais sentar naquela porra de selim, e andar sozinho sem ninguém para conversar só acentua o destaque a tal dor na região da faixa de Gaza.
Muitas vinícolas, pelo caminho, muito Sol na orelha, a cordilheira cresce na minha frente e depois de aproximadamente 60 Km de pedalada começa a famosa subida da cordilheira!!
Antes, encontrei uma placa que anunciava umas fontes de águas termais, o único indício de sombra na região, e foi lá, debaixo dessa bendita placa que resolvi sentar, esticar as pernas repousar, e fazer um pequeno lanchinho.

São agora 12:30. deve fazer um calor de 34°C, é a hora da grande prova contra o meu próprio ânimo. Eu imaginava que o caminho fosse mais bem estruturado, algum posto de gasolina com um quiosque, um tiozinho que vendesse pamonha no caminho, ou sei lá, qualquer alma que resolvesse levantar a discussão sobre o melhor entre Maradona e Pelé...

Nada. Só eu, "La Revancha", as montanhas, o calor e aquilo que eu queria chamar de liberdade, de revolução pessoal.
Até que ponto eu aguento? Até onde vai minha "loucura"?
Será que é loucura mesmo o que ando fazendo?
Loucura mesmo seria aguardar as tais férias forçadas num estúpido ambiente de trabalho, obediente e baixando a cabeça para um velho gordo que só faz sentar numa cadeira em frente ao PC e dar ordens.
Nem limpar a própria bunda o maldito deve querer fazer, afinal, ele atingiu o "status" de chefe.
Sua superioridade é a posição que ocupa diante de três funcionários, e lá ele é o rei, o manda-chuva.
Pobre gordo frustrado...

Status social, dinheiro, bens materiais... O que isso significa para mim agora?
Coisas tão simples, pessoas tão puras vivem no mundo e parecem personagens de ficção nesta nossa "realidade". Damos as costas à elas simplesmente pela busca frenética e frustante de status social?
Trabalhar para ter dinheiro, comprar um carro, roupas, orar para um deus e receber coisas em troca, pagar o aluguel, que vida de merda é essa?! Porque tenho que seguir essa doutrina, porque tenho que ser tudo isso também?
Se não desejo isso sou um alienado, se não aceito esse tipo de vida sou um vagabundo.
Quero estar longe de tudo isso. Prefiro me juntar aos vagabundos, e seguir minha própria verdade.
Estou procurando alguém que sempre esteve ali, escondido e reprimido lá dentro por questões morais e éticas que sempre foram impostas, e que nunca fizeram sentido.
Este é o primeiro passo de alguém que simplesmente se encheu de tudo e que não tem a mais puta idéia de onde chegar com isso e até que ponto afetará sua vida.
Só eu mesmo posso saber.

domingo, 13 de janeiro de 2008

a viagem...


Escrevo de Santiago, dia 13 de janeiro... 13 dias depois de terminar a travessia.

Devo dizer que os planos eram outros...
A intençao era atualizar esse blog na estrada nos lugares que fosse parando para descansar na medida em que as coisas iam acontendo, porém descobri que a tecnologia nem sempre chega aonde deveria.
Completei minha viagem em 4 dias sofridos, desgastantes... Mas completamente revigorantes!
Pensei em desistir no primeiro dia, depois de passar por maus bocados, sofrer com o Sol com o clima e com a altitude, mas depois de descansar e me recuperar decidi seguir.
Nao troco por nada tudo o que vivi. Se voltasse no tempo, apenas faria algumas coisas de outra forma para que fossem menos dificeis.
Muita gente me apoiou na estrada, nos lugares que parei, os caminhoes e carros que passavam e que bozinavam... Me senti como o Forrest Gump, que decidiu atravessar a gringolandia correndo e no caminho encontrou alguns seguidores.
Vi que o que estava fazendo para muitos era uma loucura, o que me deu forças vendo a admiracao que tinham pelo que estava fazendo...
Acho um exagero, nao sou nada, nao sou ninguem, nao tenho nada, nao sou um atleta, apenas me cansei de tudo e fui fazer o que sempre quis.
As pessoas às vezes nao entendem uma atitude como essa. Me perguntam se existe algum significado, se busco algo, se faço por alguém, se faço por alguma causa.

Essa está sendo a melhor experiencia da minha vida! Vivi e estou vivendo o meu melhor momento.

Duro será voltar para o mesmo, voltar a tudo aquilo que me fez partir. Esses dias andei meio triste por causa disso, pensando e repensando na vida que deixei para trás (bom, nao deixei para trás, apenas me afastei por algum tempo), mas como será viver em Sao Paulo depois de toda essa experiência?
Vi lugares espetaculares, conheci pessoas simples, conheci simpáticos viajantes de todo o lugar do mundo, convivi com gente que jamais conviveria em Sao Paulo... Vivi coisas que na cidade grande sao insignificantes, que nao servem para nada e que na verdade sao preciosas, essenciais.
Na cidade todos se preocupam com seu umbigo, apenas tratam de exibir e exaltar seu ego e seus bens materiais para assim serem reconhecidos, notados.
Vida mesquinha, fútil, consumista e sem sentido.

Encontro isso em todo lugar dessa cidade, até em pessoas que se dizem contra essa vida ridícula, que acham que vivem de forma alternativa. De uma forma ou de outra acabam sempre se repetindo e agindo da mesmo jeito que todo mundo age.
Nao gostaria mais de me preocupar com problemas estúpidos, "importantes problemas" inúteis.

Enfim...
Muito obrigado a todas as pessoas que me apoiaram e que nao me acham um idiota ou um vagabundo.
Cada um deve saber muito bem o caminho que seguir, seja ele certo ou errado de acordo com sua vivência e seus valores pessoais. Cada um tem seu limite e cabe a si mesmo descobrir onde ele termina e se de fato deseja chegar a esse extremo.

A última vez que escrevi estava em Mendoza, na noite antes da partida.
Desde entao, passaram-se 13 dias de muita preguiça...
Vou dividir os posts por dias, do primeiro ao quinto dia, e publicar os posts com a data exata em que aconteceram os fatos para facilitar a compreensao do que se passou.

É isso aí.
Cliquem nas fotos que encaminham ao outro site onde estou baixando as fotografias da viagem, ou cliquem aqui, que é mais fácil:

www.flickr.com/photos/terrorista

Beijunda fiotes!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Subindo a Montanha!!


Pq. San Martin, e a subida
Upload feito originalmente por terroristalatino
Chegou a hora tao esperada, tao pensada e pouco planejada.
Estou atrasado dois dias do meu planejamento inicial.
Nao importa, nao estou com pressa, apenas tenho o compromisso de chegar até o dia 4, pois me comprometi com o Glaubicha de comprar os ingressos do Suicidal Tendencies no Chile.
Como me sinto?
Nem eu sei direito. Prefiro nao pensar em adversidades, prefiro simplesmente criar coragem e subir na Nêga pra enfrentar a montanha, pois ás vezes converso com meus botoes, e vejo problemas onde nao existe.
Em alguns momentos ando feliz de realizar tudo o que planejei, e em outros fico tenso... Mas é normal, quando se vai enfrentar o desconhecido.
Quando cheguei em Mendoza, e vi aquelas montanhas deu medo!!
E quando soube que no dia anterior tinha chovido, nessa cidade seca e que nunca chove surgiu um pingo de preocupaçao!!
O pessoal do Hostel em Mendoza ligou para a Gendarmeria Nacional (militares que cuidam da regiao de alta montanha) e disseram que o tempo estava nublado na cordilheira com possibilidade de chuvas e ventos...
Achei melhor adiar a viagem ppor pelo menos 1 dia...
Bom para dar um rolê, conhecer a cidade e testar a bike.
Cheguei no Hostel e a primeira coisa que fiz foi montar "La poderosa", A Nêga, a magrela.
Aqui em Mendoza tem uma puta bicicletaria, e nao foi dificil comprar algum acessorio que faltava... Na verdade o último, meu capacete que tanto reneguei... Capacete de ciclista é feio pra cacete!!
Cidade bonita, tranquila, seca e quente! Tierra del Sol y del buen vino, como dizem por aqui.
Com a bicicleta ficou facil conhecer cada ponto da cidade, e ao entrar pelo parque San Martin, subi uma montanha e cheguei ao Cerro de la Glória.
Tirei umas fotos bacanas...


ao fundo nota-se o mau tempo na cordilheira...

Bom, amanha é o dia. A partir de agora atualizo aqui la de cima. Me desejem boa sorte!
Inté!!
Um beijo na bunda de cada um. Com carinho.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Buenos Aires, che boludo!

Já tá na hora de atualizar este blog, comecei a minha viagem há mais de uma semana e ainda nao postei nenhum comentário sobre o que tenho vivido.

Pra falar a verdade, tenho feito tanta coisa que nao sobrou muito tempo para sentar e escrever...

E-mails, scraps no orkut, postagens de fotos, essas coisas mais simples e corriqueiras eu tenho feito, mas acho que a viagem se torna menos interessante se contada depois. Melhor ir contando as coisas conforme elas acontecem.

Bom, neste exato momento estou em Mendoza, cidade ao pé da Cordilheira dos Andes com clima quente e seco... Raramente chove por estas bandas, e imaginem só que na manha em que cheguei havia chovido de noite!!!! (seria um bom sinal, ou sria o contrário?)

O tempo aqui nao esta dos melhores, e nao pretendo começar a subir a Cordilheira com vento e frio... Temos que respeitar a montanha!!!

Olho para o horizonte de qualquer ponto da cidade e vejo a imponencia dos Andes, só que cheio de nuvens!! Dá até medo!
Com o tempo ruim na Cordilheira, achei melhor começar a pedalar um dia depois, ou seja, amanha...

Mas antes, vou contar resumidamente o que fiz em Buenos Aires até chegar aqui.

Cheguei dia 20 de manhazinha pontualmente no horário combinado pela Crucero del Norte, viagem tranquila, sem quebras e conversando com um casalzinho simpático do Rio de Janeiro (Qualé?).

Minha bagagem nao podia ser muita, já que cada grama se tornaria quilos extras numa viagem tao larga em bicicleta e ainda cruzando a maior cadeia de montanhas das Américas.

Duas camisetas (uma para pedalar e outra para sair) além da que eu vestia, uma calça, 4 cuecas e 4 meias para passar 1 mes!! Bike punk!
Nesses dias em Buenos Aires fui lavando as cuecas e as meias no chuveiro, a medida que ia usando cada uma, e deixava secar no varal até o fim do dia.

O Albergue é uma diversao! Muita gringaiada, e como nao podia faltar, a maioria sempre é brasileiro.
Conheci israelense, canadense , haitiano, sueco, australiano, colombiano e Francês, todo mundo muito gente fina.
Usei a estadia em Buenos Aires para matar as saudades da cidade mais encantadora que já conheci na minha vida (até o momento, né?).

Deu vontade de ficar por lá mesmo, que cidade tao bonita e organizada!!!
A quantidade de praças e edifícios históricos preservados, mostram que os argentinos se preocupam em construir uma cidade humana, uma cidade para se viver bem. Uma cidade que preserva suas raízes e tem orgulho de sua história.
Trocaria Sao Paulo por Buenos Aires sem pensar.
Pobreza? Claro que tem, e muita! Sairam de uma crise financeira a nao muitos anos. Perdi as contas de quantos meninos me vendiam coisinhas para pagar o almoço.
Na Argentina também se nota a desigualdade social, como no Brasil.
Sujeira? Também tem, gente mal educada existe no mundo inteiro, porém que estou tentando dizer é de praças, bicicletas nas ruas, ilhas de tranquilidade em pleno centro da cidade.
Onde posso deitar na grama e ler um livro no centro de Sao Paulo? Na Republica? Na Sé? Talvez no Anhangabaú se um bebum ceder um espacinho ao seu lado.
Infelizmente quem vive em Sao Paulo e dá um pulo por essas bandas percebe a mesma coisa.

relax em Puerto Madero

Na nossa cidade nao existem praças!!
Se destruiu tudo para que fossem erguidas enormes construçoes privadas, com cercas, mega edificios com 5 vagas de carro para cada apartamento (que viverao no maximo 4 pessoas) seguranças trogloditas e cameras.
Fomos isolados para ficar trancados em casa com medo.
Em casa, somos induzidos a consumir os produtos inuteis que nos passam a sensaçao de felicidade e da falsa liberdade.
Quer tomar um ar? Vai ao shopping Tatuapé!!
Quer diversao para o povo? Construa um shopping Aricanduva que tem de tudo dentro de suas dependencias até pista de skate (coberta para nao ver a luz do Sol)!
Nao que essas coisas nao existam por essas bandas...
Mas em Buenos Aires passar o domingo na praça nao é um programa de índio.
Já to com saudades de lá. (será que eu volto?).

Bom, provavelmente amanha começo a cruzar os Andes. Me desejem boa sorte!
Um beijo na bunda de cada um.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Onde estava com a cabeça quando tive essa idéia?!

Escuto o tempo todo "Você é louco!", "Vai morrer no caminho!, "Tem que pedalar 100Km por dia senão não vai aguentar", pois é... Realmente o povo tem razão, mas vejamos por outro ângulo, ou melhor, contarei um pouco da trajetória até a decisão final:
Perdi meu "estimulante" trabalho de vendedor de calças no shopping em Fevereiro deste ano, e acabei me deparando com o pior dos cenários; sem dinheiro, sem trabalho, sem família para ajudar e com o aluguel para vencer (e para piorar, meu gato morreu no mesmo dia!!!).
- O que fazer numa situação dessas? - pergunto eu.
O desemprego desta vez não durou muito tempo, pois meus amigos Lauro e Ananda (duas boas almas) , me indicaram para um trabalho.
Desde lá venho fazendo malabarismos para me sustentar, vendendo o almoço para pagar a janta. A passagem de ônibus nesta cidade beira o absurdo, e vi que o dinheiro gasto por mês de condução, se economizado poderia me ajudar com outras despesas.
Resolvi então gastar minhas economias de alguns anos que guardava sempre para alguma emergência e comprei minha bicicleta em Março.

Para deixar curta a história, e voltar ao assunto principal, me disciplinei a ir de bike todos os dias ao trabalho, a exemplo de alguns amigos que o faziam.
De lá pra cá peguei gosto pela coisa, e a magrela passou a fazer parte da minha vida; virou uma extensão do meu corpo.
Vou agora a todos os lugares de bike, e não abro mão desta opção. Transformei a rotina diária e tediosa de ir ao trabalho espremido em uma lata velha e abarrotada de gente, pelo prazer de andar de bicicleta diariamente.
Haja força de vontade!! Minha disposição aumentou muito.
De uns tempos para cá venho visitando sites de cicloturismo, e frequentando encontros de amantes da magrela, como a bicicletada (http://www.bicicletada.org/) , encontrando pessoas que também acreditam em uma vida mais simples sem o stress da vida moderna com trânsito e caos, apontando soluções, mostrando que é possível se deslocar pela metrópole pedalando, devolvendo assim a cidade a quem realmente deveria pertencer: Ao cidadão.

Bom, para concluir...

Em Novembro na Mostra Internacional de cinema de São Paulo, assisti a um documentário chinês chamado "Através do Planalto", (http://www2.uol.com.br/mostra/31/p_exib_filme_48.shtml) onde aposentados de idade entre 55 e 66 anos(!) se propuseram a pedalar 3.100Km de uma cidade próxima a Beijing até o acampamento-base no Monte Everest, cruzando toda a China pelo Himalaia atingindo altitudes de até 5.200 m, e tudo isso de bicicleta!!!
Bom, imaginem que não são atletas, apenas tinham a mesma paixão que tenho pela magrela e muita vontade de enfrentar suas próprias fraquezas e superá-las.
Percebi que às vezes deixar de lado suas preocupações é viver, e que viver é se deixar levar pelos seus sonhos.

Após algumas frustrações, algumas decepções e alguns sonhos interrompidos nos últimos meses resolvi então dar um basta; larguei o emprego e fiz o planejamento em 1 mês desta viagem pelos Andes.

Bem diferente desses tiozinhos chineses que executaram essa viajem em 45 dias, pretendo terminar este percurso de 390 Km em no máximo 5 dias, tentando chegar a Santiago do Chile um dia antes do ano novo, partindo de Mendoza no dia 26 de dezembro, e chegando a Santiago no dia 30 ou 31 de dezembro.
Pretendo me hospedar em albergues no meio da cordilheira em Uspallata, e ou em Las Cuevas, e gostaria de conhecer a região.

Quem tiver curiosidade de conhecê-los:

Uspallata - http://www.hosteluspallata.com.ar/
Las Cuevas - http://www.arcodelascuevas.com.ar/#

Bom, eu diria que não sou nenhum atleta, não treinei insistentemente esperando atingir o preparo físico ideal, simplesmente deixei de lado um pouco da razão, para me deixar contagiar pela paixão e entusiasmo de fazer algo novo e excitante em minha vida que até o momento tornava-se absolutamente monótona e sem graça, seguindo apenas o curso natural de todo cidadão padronizado.

"Não é necessário ser um ciclista experiente para fazer cicloturismo. Qualquer um pode fazê-lo. Basta ir com calma, respeitar os próprios limites, beber água e alimentar-se na hora certa e assim vencer pouco a pouco a distância.
No cicloturismo há sempre uma sensação de aventura, retorno à infância, mistura de liberdade e molecagem sadia. É um escapar da mesmice. Bicicletas são simples e revelam que a vida pode ser muito simples."

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

El Gran Plan!

Pois bem, vamos ao plano de batalha:

Ponto de Partida - São Paulo
Destino - Mendoza (Argentina)
Destino Final - Santiago de Chile (ou quem sabe, Viña del Mar)

Meios de Transporte - Busão e Bicicleta. (Bicicleta?!)

O trajeto.

São Paulo a Buenos Aires de ônibus - Infelizmente (ou felizmente) não existe passagem direta de São Paulo a Mendoza, por isso fui obrigado (maldição!!!) a passar por Buenos Aires antes, aproveitando o passeio ficando por lá un 4 ou 5 dias. Passarei o Natal, me hospedarei em um albergue, conhecerei a cidade de bicicleta, claro, já que a cidade é plana e perfeita para pedalar me preparando para a segunda parte da viagem.

No dia de Natal, viajarei até Mendoza, 1000Km de Buenos Aires, onde começará minha jornada ciclistica até o Chile. Alguém me pediu um mapa deste trajeto, portanto aí está o mapa:


(clique no mapa para ampilar)

As Distâncias:


São Paulo - Buenos Aires: 2200Km (ônibus)
Bs. As. - Mendoza: 1100Km (ônibus)
Mendoza - Santiago: 390 Km (bicicreta)


Altitude Máxima atingida: 4300 metros sobre o nível do Mar (no Cristo Redentor, próximo a Las Cuevas, local exato da divisa entre Chile-Argentina).

Bom, por enquanto é isso. Vou contando um pouco da história, postando algumas fotos, contando como estou arrumando minha bike, como levarei até o destino, quantidade de bagagem e por aí vai.
Obrigado pela paciência.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Well, well, well...

Apresentando meu diário de bordo.
Nunca fui fã de expor minha vida em lugar algum, nunca me agradou a idéia de ser visto por mais de 3 pares de olhos atentos, esperando apenas um deslize para me massacrar, porém achei válida a idéia que alguém me deu de escrever em um blog detalhes da minha aventura por Sudamerica, acompanhado apenas da minha magrela.
Legal! Imagine se algum suicida se depara com minha página e após ler minhas palavras desiste de sua idéia... Ou quem sabe, após lê-la resolve se matar de uma vez por todas, me tornando um homicida indireto...
Encontrei um lugar onde depositarei meus planos, minhas viagens físicas, mentais e filosóficas, meus medos, minhas inseguranças, minhas loucuras e opiniões.
Pretendo escrever desde o planejamento, os caminhos que percorrerei, as pessoas que vou conhecer, as dores que vou sentir, o cansaço, a fome, a falta de grana que me acompanha desde sempre, meus sonhos, emoções, meu reencontro com a família, enfim...
Gostaria de atingir o coração de cada criatura que se atrever a ler esta página, colocar pelo menos um pingo de esperança e que sintam um pouco dessa sensação de liberdade, por ter jogado para o alto um emprego sem perspectivas, uma vida apática e sem graça atrás de uma mesa cuidando de documentos inúteis, somente para sentir um pouco de vento e sol na cara.
Espero que tentem entender pelo menos algo que guardo em minha alma e que às vezes não consigo expressar, e quem sabe desta forma ajudar a conhecer-me um pouco.
É isso. Sem luxo, quase sem dinheiro, uma estrada, e o horizonte a minha frente.